Entrevista | Betânia e a Gambiarra Livros
Entre a crise e a invenção: como nasce uma livraria itinerante no Brasil

Em um momento de incerteza, quando o mercado editorial passava por transformações profundas e a circulação de pessoas era limitada, a livreira Betânia decidiu reinventar sua relação com os livros — e com os leitores.
Após uma trajetória consolidada no setor — passando por livrarias, editoras e equipamentos culturais — o desligamento de um grande grupo editorial durante a pandemia abriu caminho para a criação da Gambiarra Livros: uma livraria independente, itinerante e profundamente conectada com o território, com o encontro e com a bibliodiversidade.
Nesta entrevista em formato ping-pong, Betânia compartilha como nasceu o projeto, os desafios estruturais do mercado e a potência das pequenas livrarias na formação de leitores e na circulação de ideias.
A Gambiarra Livros nasceu em um momento muito desafiador, durante a pandemia. Como foi esse início e a decisão de criar um projeto próprio?
Betânia:
A Gambiarra nasce em um momento de ruptura pessoal e profissional. Eu havia sido desligada de um grande grupo editorial após a incorporação da editora em que trabalhava, e isso aconteceu justamente em um período de muita instabilidade, que foi a pandemia.
Mas, ao mesmo tempo, eu já trazia uma trajetória longa no universo do livro. Trabalhei como livreira por mais de uma década, atuei em livrarias, em editoras, como compradora em biblioteca pública — então o livro sempre foi o eixo central da minha vida profissional.
Diante desse cenário, comecei a refletir sobre a possibilidade de construir algo próprio. Inicialmente, pensei no ambiente digital, porque ainda vivíamos um contexto de restrições sanitárias, com pouca circulação e muitos espaços fechados.
Eu já tinha uma atuação na Estante Virtual desde 2016, ainda de forma muito informal, vendendo livros usados. Era algo que acontecia paralelamente, sem grande estrutura.
Quando decidi estruturar a Gambiarra, comecei explorando esse caminho, inclusive ampliando para outras plataformas. Mas rapidamente percebi que, para quem está começando, pequeno, sem grande estrutura e capital, competir nesses ambientes é extremamente difícil.
Especialmente naquele momento, em que grandes grupos cresceram muito e consolidaram sua presença no digital, não havia um espaço saudável de competição. Foi esse choque com a realidade que me levou a entender que seria necessário diversificar e buscar outros caminhos.
E como surge a ideia da livraria itinerante?
Betânia:
A livraria itinerante nasce de um encontro muito concreto com a cidade e com o momento que estávamos vivendo.
No final de 2021, ainda num contexto de retomada, eu passeava pela Rua do Lavradio, no Rio de Janeiro, e vi a feira acontecendo — menor, mais tímida, ainda com receios por parte dos expositores, mas viva.
Aquilo me chamou muita atenção. Era um espaço diverso, com muitos produtos, muitas histórias, mas sem a presença do livro. E isso me provocou: por que não levar o livro para um ambiente que não é tradicionalmente do livro?
Entrei em contato com a organização e, para minha surpresa, descobri que já havia um movimento literário sendo articulado ali, o Lavradio Literário, criado por livreiros que também estavam reinventando suas formas de atuação naquele contexto.
Consegui participar do primeiro evento e foi ali que a Gambiarra Livres começou de fato como livraria itinerante.
Era um momento ainda cheio de cuidados — máscara, álcool, distanciamento — mas, ao mesmo tempo, havia uma necessidade enorme de reencontro. E o livro se tornou um mediador desse encontro, dessa troca, desse “olho no olho” que estava tão ausente.
Muitas vezes se fala das grandes redes e marketplaces. Qual é o papel das livrarias independentes hoje?
Betânia:
Existe uma diferença estrutural importante.
As grandes redes, os grandes marketplaces, operam a partir de uma lógica de escala. O foco está no volume, no giro, naquilo que vende mais e mais rápido. E isso é legítimo dentro de um modelo de negócio.
Mas as livrarias independentes — especialmente as de bairro — operam a partir de outra lógica, que é a da proximidade.
O livreiro conhece seu público, conversa com ele, acompanha seus interesses. Isso permite uma construção de acervo muito mais sensível, mais diversa, mais conectada com o território.
É aí que entra a bibliodiversidade. Você não está preso apenas ao que é tendência ou ao que vende em grande quantidade. Você pode apostar em temas específicos, em editoras independentes, em autores locais, em debates relevantes para aquela comunidade.
A livraria deixa de ser apenas um ponto de venda e se torna um espaço de cultura, de encontro, de formação de leitores e de circulação de ideias.
A Gambiarra se tornou uma livraria itinerante. O que muda quando o livro chega mais perto das pessoas?
Betânia:
Muda profundamente a relação.
Quando você leva o livro para a rua, para feiras, para espaços mistos, você quebra uma barreira importante: a ideia de que o livro está restrito a determinados lugares ou públicos.
Muitas vezes, as pessoas não saem de casa com a intenção de comprar um livro, mas se deparam com ele e se encantam. Existe uma surpresa nesse encontro.


E esse encontro não é apenas comercial — ele é relacional. É conversa, troca, escuta. Já vivi muitas situações em que a pessoa passa um longo tempo conversando, compartilhando experiências de leitura, e só depois, às vezes no dia seguinte, retorna para comprar.
Além disso, há uma questão importante de acesso. Em algumas feiras, ouvi relatos de pessoas que não conseguiam ir à Bienal por questões financeiras — custo de transporte, ingresso, alimentação. E, ao encontrar uma feira no seu território, diziam: “é como se essa fosse a minha Bienal”.
Isso é muito significativo. Porque estamos falando de democratização do acesso ao livro e à experiência cultural.
Plataformas como a Estante Virtual tiveram papel importante nesse processo. Como você avalia esses espaços para pequenos livreiros?
Betânia:
A Estante Virtual teve — e ainda tem — um papel fundamental.

Ela possibilitou que pequenos livreiros pudessem vender para todo o Brasil, com uma estrutura relativamente simples e com custos mais acessíveis. Isso é algo muito potente.
Quando comecei, em 2016, ainda de forma informal, foi um espaço que me permitiu entrar no mercado. E, mesmo depois de estruturar a Gambiarra, continuou sendo uma base importante.
Claro que o mercado mudou muito de lá para cá, e os desafios aumentaram. Mas, ainda assim, a Estante Virtual segue sendo, na prática, o ambiente mais viável para quem é pequeno.
Ela permite a convivência de diferentes perfis de livreiros — desde os maiores até aqueles com acervos menores — e isso contribui para a diversidade do mercado.
Depois dessa trajetória, o que ainda precisa mudar no mercado para fortalecer os pequenos livreiros?
Betânia:
Essa é uma reflexão inevitável quando olhamos para a prática.
A trajetória da Gambiarra deixa isso muito evidente. Quando tentamos atuar com livro novo em plataformas digitais, nos deparamos com uma disputa que é, essencialmente, de preço — e uma disputa completamente desigual.
Um pequeno livreiro não tem condições de competir com grandes empresas que operam com descontos muito agressivos, muitas vezes superiores ao próprio custo do livro. Isso acontece porque, para esses grandes players, o livro não é necessariamente o produto central — ele pode funcionar como estratégia dentro de um ecossistema maior.
Essa lógica torna o ambiente digital uma disputa permanente de preço, e essa equação simplesmente não fecha para quem é pequeno.
Foi justamente por isso que a Gambiarra escolheu ir para a rua. Porque ali o diferencial não está no preço — está na experiência, no atendimento, na curadoria, na construção de vínculo, na presença no território.
Mas isso não resolve o problema estrutural.
É fundamental que o setor retome o debate sobre a regulação do preço do livro — a chamada Lei do Preço Único, ou Lei Cortez. Pode ser um tema incômodo, mas é necessário.

Hoje, vemos inclusive situações em que editoras vendem diretamente ao consumidor com descontos que nem o distribuidor tem acesso. Isso gera um desequilíbrio em toda a cadeia.
Se não enfrentarmos essa discussão, corremos o risco de asfixiar justamente os elos que garantem diversidade, capilaridade e formação de leitores — como as pequenas livrarias.
O que está em jogo não é apenas o modelo de negócio, mas o ecossistema do livro como um todo. Precisamos garantir que ele seja sustentável para todos: mais livrarias, mais editoras, mais autores e mais leitores.
E isso só será possível com diálogo, com pactuação e com uma visão de conjunto sobre o futuro do setor.