Inteligência ampliada: Bienal debate o futuro do trabalho na era da IA

Painel no Salão de Ideias reuniu Michelle Schneider, Fernando Barra e Gil Giardelli, com mediação de Renata Feltrin, para discutir os impactos da inteligência artificial no trabalho, na educação e nas relações humanas

Como será o trabalho em um mundo no qual a inteligência artificial já não é apenas uma promessa de futuro, mas uma tecnologia presente no cotidiano de profissionais e empresas? A pergunta esteve no centro da mesa “Inteligência Ampliada: humanos, IA e o trabalho que ainda vamos construir”, realizada no Salão de Ideias, dentro da programação oficial da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

O encontro reuniu Michelle Schneider, Fernando Barra e Gil Giardelli, com mediação de Renata Feltrin, em uma conversa que passou pelo futuro das profissões, educação, novas habilidades, agentes de IA, criatividade, saúde mental e, sobretudo, pelo papel do ser humano diante de uma transformação tecnológica que avança em ritmo acelerado.

Logo no início, o debate colocou em perspectiva uma das maiores inquietações provocadas pela IA: o impacto sobre os empregos. Mais do que tentar prever quais profissões permanecerão ou desaparecerão, os participantes chamaram atenção para a velocidade da transformação e para o desafio de preparar pessoas para funções e modelos de trabalho que ainda estão sendo construídos.

Gil Giardelli trouxe para a discussão o conceito de “destruição criativa” e destacou a necessidade de uma transformação também na educação. Para ele, atividades repetitivas tendem a ser cada vez mais assumidas pela tecnologia, o que exige preparar a sociedade para novas formas de atuação profissional.

Michelle Schneider acrescentou outra camada à conversa ao discutir se os novos postos criados pela transformação tecnológica estarão, de fato, acessíveis às mesmas pessoas que perderem suas funções. Localização, formação e novas habilidades podem criar um descompasso entre os empregos que desaparecem e aqueles que surgem. A velocidade das mudanças torna ainda mais difícil fazer previsões de longo prazo sobre o futuro do trabalho.

Tecnologia avança, mas o humano permanece no centro

Ao longo da conversa, um ponto aproximou as diferentes perspectivas: quanto mais a tecnologia amplia suas capacidades, mais importante se torna compreender aquilo que permanece essencialmente humano.

Fernando Barra abordou essa questão ao diferenciar inteligência, consciência e capacidade de sentir. Se a IA já consegue processar dados e apoiar tomadas de decisão, características como empatia, sentimento e compreensão do contexto ganham outro peso na construção do profissional do futuro.

Fernando tem uma relação próxima com a Bookinfo: além de já ter ministrado uma formação sobre inteligência artificial para a equipe da empresa, também esteve à frente do IA Experience, voltado ao mercado editorial. Sua participação no painel reforçou discussões que vêm sendo acompanhadas pela Bookinfo sobre os impactos concretos da tecnologia no setor.

Michelle também destacou a importância de combinar letramento tecnológico com competências humanas. Em sua análise sobre as habilidades necessárias para o futuro profissional, entram aspectos como curiosidade, criatividade, aprendizado contínuo, inteligência emocional, resiliência, flexibilidade e saúde mental.

Gil, por sua vez, colocou criatividade, curiosidade e autenticidade entre os atributos que continuarão diferenciando os seres humanos, mesmo em um cenário no qual máquinas já são capazes de reconhecer padrões, produzir textos, imagens, músicas e realizar atividades cada vez mais complexas.

IA para ampliar, não para deixar de pensar

Outro ponto importante do painel foi a maneira como utilizamos a inteligência artificial. A discussão foi além da automação de tarefas e trouxe um alerta para o risco da passividade intelectual.

A tecnologia pode ampliar repertórios, acelerar processos e apoiar a aprendizagem, mas não deveria substituir o exercício de pensar. Nesse contexto, experiência e conhecimento acumulado também ganham importância: quanto maior o repertório de um profissional, maior tende a ser sua capacidade de formular boas perguntas, avaliar resultados e identificar limitações nas respostas oferecidas pela IA.

O próprio conceito de “inteligência ampliada” que deu nome ao encontro apareceu, assim, como uma possibilidade de relação entre humanos e tecnologia: não apenas usar máquinas para fazer mais rápido aquilo que já fazemos, mas descobrir como elas podem nos ajudar a fazer melhor.

E, diante de um futuro difícil de prever, uma das mensagens deixadas pelo painel talvez seja também uma das mais simples: será preciso manter a capacidade de “aprender, desaprender e aprender de novo”.

Em plena Bienal do Livro, o debate sobre inteligência artificial terminou, portanto, voltando ao humano. Em um cenário de algoritmos, agentes e robôs cada vez mais presentes, repertório, pensamento crítico, criatividade, curiosidade e capacidade de adaptação seguem como elementos fundamentais para construir e não apenas assistir ao futuro do trabalho.

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