Livros crescem 66% no Mercado Livre e mercado editorial debate novos caminhos para alcançar leitores

A Bookinfo acompanhou o Mercado Livre Experience 2026, realizado nos dias 24 e 25 de setembro, no São Paulo Expo. O evento reuniu lideranças do varejo e do e-commerce para discutir tendências, comportamento do consumidor e oportunidades de crescimento no comércio eletrônico.

Entre os destaques da programação, um painel reuniu Luciana Borges, da Companhia das Letras, Daniel Rodrigues, da Livraria Leitura, e representantes da Tagima e da Top Music. A conversa abordou os desafios de categorias tradicionalmente ligadas à experiência física, com destaque para a importância dos metadados, a influência das redes sociais na descoberta de produtos e a integração entre os canais de venda.

Um dos números de destaque apresentados pelo Mercado Livre foi o crescimento acumulado de 66% nas vendas da categoria de livros na plataforma em 2026, desempenho que reforça a expansão do comércio eletrônico no setor. Outro dado apresentado foi a recorrência média de 4,4 compras por consumidor de livros, indicador que, segundo representantes da plataforma, ainda tem potencial para avançar.

A discussão trouxe reflexões sobre a maneira como os consumidores descobrem novos títulos, o papel das redes sociais na formação da demanda e a necessidade de editoras e livrarias estruturarem suas operações para atender um mercado cada vez mais conectado.

Para Luciana Borges, diretora comercial da Companhia das Letras, a transformação digital ultrapassa a abertura de mais um canal de vendas. Ela representa uma mudança na forma como as editoras se comunicam com seus leitores e disponibilizam seus conteúdos.

A executiva destacou que a quantidade de livrarias físicas espalhadas pelo Brasil ainda é limitada diante do potencial de consumo e da diversidade de títulos publicados. Nesse contexto, o comércio eletrônico permite superar barreiras geográficas e aproximar os leitores de obras que dificilmente encontrariam em suas cidades.

Na avaliação de Luciana, a ampliação dos canais de comunicação foi determinante para essa transformação. Com as redes sociais e as ferramentas digitais, autores e editoras passaram a falar diretamente com seus públicos, despertando o interesse por obras independentemente da presença de um ponto de venda físico.

A possibilidade de transformar esse interesse em compra e receber o livro em casa complementa a experiência e amplia o alcance do mercado editorial.

“O e-commerce mudou a estratégia do mercado editorial como um todo”, afirmou Luciana, ao destacar a necessidade de investimentos em tecnologia, logística, processos e agilidade para garantir que o conteúdo chegue mais rapidamente às mãos do leitor.

Daniel Rodrigues, sócio e diretor de Tecnologia e Canais Digitais da Livraria Leitura, reforçou essa avaliação ao abordar as oportunidades de comercialização de um catálogo extenso. Segundo ele, o comércio eletrônico abriu espaço para a venda de livros que não necessariamente integram as listas de mais vendidos, mas encontram seu público graças à maior disponibilidade de títulos no ambiente digital.

Essa dinâmica fortalece a chamada cauda longa do mercado editorial, formada por obras de diferentes gêneros e segmentos que mantêm demanda mesmo fora dos grandes lançamentos.

Daniel ressaltou que o e-commerce permite oferecer essa variedade a consumidores de regiões nas quais a presença de livrarias é pequena ou inexistente, algo difícil de reproduzir exclusivamente com a estrutura física.

Para dimensionar a complexidade da operação, o executivo mencionou que a Livraria Leitura administra aproximadamente 6,5 milhões de anúncios no Mercado Livre, considerando sua presença na plataforma. O volume evidencia a importância da tecnologia e da organização das informações para a comercialização de um catálogo diversificado.

Outro ponto de convergência entre os representantes do setor foi a importância da integração entre os canais de venda.

Daniel Rodrigues defendeu que as livrarias físicas continuam exercendo um papel fundamental na descoberta de novos livros. A possibilidade de circular entre as estantes, conhecer títulos e explorar diferentes gêneros oferece uma experiência que complementa a conveniência das compras digitais.

O comércio eletrônico, por sua vez, amplia a variedade disponível e facilita a aquisição de obras específicas, permitindo que o consumidor escolha a melhor forma de comprar.

A presença da Livraria Leitura em diferentes regiões do país também contribui para aproximar a operação digital do consumidor, permitindo combinar a estrutura das lojas com as possibilidades de atendimento e entrega oferecidas pela plataforma.

Luciana complementou essa perspectiva ao destacar a importância do relacionamento entre editoras e livrarias. Para ela, a integração entre os diferentes agentes da cadeia produtiva é essencial para assegurar que o leitor encontre o título desejado e tenha uma experiência de compra satisfatória.

Essa conexão ganha ainda mais relevância em um mercado marcado pela diversidade de lançamentos e pela necessidade de fazer com que os livros estejam disponíveis nos canais em que os consumidores efetivamente realizam suas buscas.

As transformações na influência sobre as decisões de compra também tiveram espaço importante no painel.

Daniel Rodrigues lembrou que, anteriormente, a participação de autores em programas de televisão, como o Programa do Jô, ou a presença de livros em novelas provocava movimentos de procura relativamente mais fáceis de identificar e antecipar.

Com a multiplicação de influenciadores digitais, esse comportamento se tornou mais complexo.

Hoje, livros podem ganhar visibilidade por meio de milhares de criadores de conteúdo, em plataformas e comunidades distintas, muitas vezes sem que editoras e livrarias consigam prever quais títulos serão impulsionados.

Para Daniel, essa diversidade de canais amplia o alcance das recomendações, mas também cria desafios operacionais. É necessário identificar rapidamente mudanças na procura, acompanhar os títulos que ganham destaque e responder às oscilações de demanda.

Luciana Borges acrescentou que a influência digital não necessariamente modificou a maneira de publicar livros, mas transformou significativamente a diversidade de caminhos pelos quais eles chegam aos consumidores.

A executiva observou que as recomendações literárias já não se concentram apenas em jornalistas, críticos ou perfis especializados em literatura. Atualmente, professores, artistas, influenciadores de comportamento e criadores de conteúdo de diferentes segmentos podem despertar o interesse por uma obra.

Essa pluralidade faz com que títulos que estavam há muito tempo no catálogo voltem a ganhar destaque e, eventualmente, alcancem posições relevantes nas listas de mais vendidos.

Segundo Luciana, nem sempre a própria indústria consegue identificar imediatamente a origem de um aumento de procura. Muitas vezes, é necessário investigar qual publicação, vídeo ou recomendação provocou aquele movimento.

A diretora também ressaltou uma particularidade do livro em relação a outros produtos: o consumidor precisa compreender o conteúdo que está adquirindo.

Uma capa atrativa ou uma apresentação visual interessante pode despertar a atenção, mas não necessariamente comunica a experiência de leitura que será oferecida.

Nesse sentido, a recomendação de alguém que conhece a obra e apresenta suas características pode ter um papel decisivo na compra.

Para a executiva, a multiplicação de pessoas falando sobre livros representa uma oportunidade de ampliar a descoberta de títulos, especialmente daqueles que não recebem tanta visibilidade nos canais tradicionais de divulgação.

Metadados são fundamentais para vender livros no digital, destaca Luciana Borges

Ao final do painel, os participantes foram convidados a compartilhar recomendações práticas para empresas interessadas em ampliar sua presença no comércio eletrônico.

Luciana Borges destacou um elemento que considera essencial para o mercado editorial: a qualidade das informações utilizadas para apresentar e comercializar os livros.

“Para você vender bem no digital, você precisa comunicar”, afirmou.

Segundo a executiva, essa comunicação começa nos metadados, responsáveis por reunir informações que permitem identificar, classificar e localizar uma obra nas plataformas digitais.

A questão se torna especialmente relevante porque o comportamento de pesquisa dos consumidores nem sempre corresponde à linguagem utilizada pelas editoras na apresentação de seus títulos.

Um leitor pode procurar determinado tema utilizando termos simples e cotidianos, enquanto a descrição cadastrada pela editora apresenta uma linguagem mais formal ou pouco conectada à maneira como aquele público pesquisa.

Nesse cenário, informações incompletas ou pouco adequadas podem limitar a descoberta de um livro, mesmo quando seu conteúdo corresponde exatamente ao interesse do consumidor.

Luciana chamou a atenção para essa contradição do próprio setor editorial: embora o livro seja um produto construído a partir das palavras, nem sempre as editoras conseguem utilizar a linguagem de forma estratégica em seus cadastros comerciais.

“O metadado é o ouro para quem quer vender no digital hoje”, enfatizou.

A executiva defendeu que editoras precisam trabalhar essas informações desde a origem do cadastro até a disponibilização do livro nos diferentes canais de venda, buscando descrições mais claras, objetivas e conectadas à jornada do consumidor.

O cuidado com títulos, assuntos, categorias, sinopses e demais informações pode contribuir para melhorar a exposição das obras, ampliar as possibilidades de descoberta e aumentar a conversão das vendas.

A reflexão dialoga diretamente com outro dado apresentado pelo Mercado Livre durante o encontro: a força das buscas genéricas dentro da categoria. Segundo a plataforma, a própria palavra “livros” está entre os termos de pesquisa de destaque, indicando que parte dos consumidores acessa o marketplace sem necessariamente ter definido o título que pretende adquirir.

Para Daniel Rodrigues, o crescimento no ambiente digital também exige um processo permanente de atualização.

O executivo destacou que a digitalização precisa fazer parte da rotina das livrarias, e não ser tratada como uma etapa concluída após a entrada em uma plataforma de vendas.

Nesse processo, a qualidade dos anúncios, a organização do catálogo, a atualização das informações e a capacidade de atender às demandas dos consumidores são elementos fundamentais.

A experiência da Livraria Leitura demonstra, segundo a discussão, que trabalhar com um volume elevado de anúncios requer investimento em tecnologia e processos capazes de acompanhar a diversidade de produtos oferecidos.

O executivo também reforçou a importância de compreender o comportamento do consumidor e utilizar o ambiente digital como uma oportunidade de ampliar o alcance dos negócios, inclusive para livrarias que já possuem operações físicas consolidadas.

A orientação é acompanhar continuamente os recursos disponíveis e buscar melhorias na apresentação dos títulos, na disponibilidade dos produtos e na experiência de compra.

Além das contribuições dos representantes do mercado editorial, o painel abordou os desafios da logística, a necessidade de desenvolver relações de confiança entre fornecedores e vendedores e a chegada de novas ferramentas digitais, como transmissões ao vivo, programas de afiliados e recursos de inteligência artificial.

Embora as categorias de instrumentos musicais e livros tenham particularidades, os participantes identificaram desafios semelhantes na necessidade de conhecer profundamente os produtos comercializados, compreender os hábitos dos consumidores e oferecer informações adequadas para orientar a decisão de compra.

Para o mercado editorial, o debate evidenciou que o crescimento do comércio eletrônico depende de uma combinação de fatores: variedade de catálogo, qualidade dos metadados, agilidade logística, integração entre canais e capacidade de acompanhar as mudanças nas formas de descoberta e recomendação.

As reflexões de Luciana Borges e Daniel Rodrigues reforçam que a presença digital deixou de ser apenas uma alternativa comercial para se tornar uma parte relevante da estratégia de editoras e livrarias.

Em um mercado que publica milhares de títulos e convive com consumidores cada vez mais conectados, fazer o livro chegar ao leitor também significa garantir que ele seja encontrado, compreendido e esteja disponível no momento em que desperta interesse.

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