O setor editorial tem a tecnologia. Agora precisa das conexões
Publicado em: 30/08/2026 | Canal de Transformação da Mídia https://media-transformation-channel.com/en/2026/publishing-has-the-technology-now-it-needs-the-connections

Publicado em: 30/08/2026 | Foto/Vídeo: Gerado por IA, Gemini
O setor editorial não carece de tecnologia e, na última década, as editoras adotaram novas ferramentas para gerenciar metadados, vendas, estoque, produção, comércio eletrônico e praticamente todas as outras áreas do negócio do livro. Mais recentemente, a inteligência artificial adicionou outra camada a esse ecossistema, prometendo automatizar tarefas e fazer um uso cada vez mais sofisticado das informações que as editoras já possuem.
Mas adicionar tecnologia e conectar um negócio são duas coisas diferentes. Um livro ainda pode percorrer uma cadeia surpreendentemente fragmentada de sistemas antes de chegar ao leitor: os metadados precisam ser transferidos da editora para o varejista, os pedidos viajam na direção oposta, o estoque e os preços mudam e os dados de vendas eventualmente retornam. Em algum ponto desse processo, as informações ainda podem precisar ser exportadas, importadas, verificadas, corrigidas ou inseridas manualmente em outro sistema.
Em outras palavras, o setor editorial tornou-se cada vez mais digital sem necessariamente se integrar completamente. Portanto, talvez o próximo passo na transformação digital do setor não seja a criação de outra ferramenta, mas sim a integração das ferramentas que já possuímos.
Fazendo com que as ferramentas se comuniquem entre si.
Esse é o tipo de ineficiência que Eduardo Cunha passou grande parte de seus 25 anos no mercado editorial tentando resolver. Hoje, como CEO da Bookinfo , empresa brasileira de tecnologia para o setor editorial , sua abordagem consiste em identificar lacunas específicas na cadeia de suprimentos de livros e encontrar maneiras de conectá-las ou automatizá-las — desde metadados e inteligência de vendas até pedidos.
Uma dessas lacunas era a troca de pedidos B2B entre livrarias, distribuidores e editoras. No Brasil, diz Cunha, muitos pedidos ainda são enviados por e-mail ou plataformas de mensagens e depois inseridos no sistema de outra empresa, criando não apenas trabalho repetitivo, mas também atraso na chegada da informação ao varejista.

Eduardo Cunha
Da digitalização à integração
A Bookinfo lançou o BookHub este ano para preencher essa lacuna, usando APIs para permitir que os sistemas existentes de diferentes empresas se comuniquem, em vez de exigir que sejam substituídos.
Cinco a seis meses após o lançamento, Cunha afirma que a plataforma processou 50 mil pedidos, representando milhões de reais em transações. Com os sistemas integrados, um varejista pode receber a confirmação, em até uma hora, do que uma editora pode fornecer e saber se os títulos faltantes estão fora de estoque, esgotados ou potencialmente disponíveis em outro ponto da rede de distribuição.
“Recentemente, o gerente de uma grande editora internacional que opera no Brasil me ligou para dizer que a integração havia economizado de três a quatro dias em suas operações”, diz Cunha. “Se eu abrir praticamente qualquer pedido hoje, os registros mostram que ele sai de uma livraria ou distribuidora e, menos de uma hora depois, já foi processado no sistema da editora.”
O que muda aqui não é simplesmente a tecnologia, mas a velocidade com que a informação pode circular pela cadeia de suprimentos. Informações mais rápidas podem afetar o atendimento de pedidos, as decisões de estoque e o serviço ao cliente, mas há também um benefício menos mensurável: o que as pessoas podem fazer com o tempo que a tecnologia lhes devolve. Para Cunha, uma das maiores vantagens é “permitir que as pessoas trabalhem menos em tarefas manuais e mais em análises e tomadas de decisão”.
Conectar a tecnologia também significa mudar processos.
Existe outro lado da integração que tem pouco a ver com software. Depois de desenvolver uma estrutura baseada em API capaz de se comunicar com diferentes sistemas, Cunha afirma que o maior desafio passou a ser convencer as pessoas a mudarem as formas de trabalho já estabelecidas.
“O maior desafio hoje em dia são as pessoas”, diz ele. “As pessoas tendem a pensar: ‘Sempre foi feito assim. É assim que eu faço.'”
Cunha descreve as empresas como uma combinação de pessoas, processos e sistemas, mas argumenta que “o processo é rei”. A tecnologia pode eliminar uma etapa manual ou conectar dois sistemas, mas os benefícios só aparecem quando as organizações estão preparadas para repensar os processos construídos em torno dela.
Isso levanta uma questão mais ampla sobre o que a transformação digital realmente exige. Nem todo problema de tecnologia editorial requer um sistema completamente novo. Às vezes, a resposta está em criar melhores conexões entre a tecnologia e as informações já presentes na empresa.
Antes da automação, infraestrutura
A questão torna-se particularmente relevante à medida que as editoras voltam sua atenção para a Inteligência Artificial. A IA está sendo cada vez mais incorporada aos metadados, ao marketing, à análise de vendas e aos fluxos de trabalho editoriais, criando possibilidades de automação que vão muito além da simples transferência de informações entre sistemas.
A própria Bookinfo está experimentando com IA, incluindo análise de metadados e recomendações baseadas em padrões de vendas. Para Cunha, o próximo passo é combinar esses dados com automação e IA para ajudar “o livro certo a encontrar a prateleira certa” — usando informações sobre o que vende em lojas específicas para embasar decisões comerciais mais direcionadas. Mas Cunha vê um risco em focar em tecnologias cada vez mais sofisticadas sem antes abordar a infraestrutura subjacente.
“No Brasil, ainda temos softwares muito antigos e muito controle baseado em planilhas, enquanto, ao mesmo tempo, falamos de inteligência artificial sem dominar fundamentos básicos como automação de processos, uso adequado de dados e metadados bem estruturados”, afirma.
O princípio fundamental não se restringe a nenhum mercado em particular. A IA pode analisar informações, identificar padrões e, cada vez mais, atuar em fluxos de trabalho diversos, mas não consegue eliminar a infraestrutura fragmentada. Se as informações necessárias estiverem dispersas em sistemas desconectados, metadados inconsistentes e transferências manuais de responsabilidade, a automação herdará essas fragilidades.
Talvez a progressão seja mais simples do que a atual discussão sobre tecnologia às vezes dá a entender: primeiro digitalizar as informações, depois conectar os sistemas e só então automatizar o processo.
A próxima grande mudança tecnológica na área editorial pode, portanto, não parecer particularmente revolucionária. Pode ser um pedido sendo transferido automaticamente de um sistema para outro, metadados sendo atualizados uma única vez e chegando a todos que precisam deles, ou informações retornando com rapidez suficiente para que alguém tome uma decisão melhor.
Nada disso atrai a atenção que a IA generativa atrai, mas cria a infraestrutura da qual depende a inovação mais ambiciosa. O setor editorial já digitalizou grande parte de seus negócios; o próximo desafio é fazer com que essas peças digitais funcionem juntas.